sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Leite Hipoalergênico: Natural

Pesquisadores da Nova Zelândia conseguiram modificar geneticamente vacas para que elas produzissem leite hipoalergênico. Especificamente, os cientistas conseguiram inibir em 96% a produção da proteína beta-lactoglobulina, presente no leite dos animais placentários (exceto no leite humano e no leite das camelas) que causa alergia a várias crianças, principalmente. No entanto, os níveis de outras proteínas não foram diminuídos, mantendo o alto valor proteico do leite. 
Estrutura da beta-lactoglobulina (Wikipedia)

Os pesquisadores da AgResearch  e da Universidade Waikato and Agresearch of Hamilton conseguiram utilizar fragmentos de RNA para silenciar os genes responsáveis pela produção da proteínas alergênica, numa técnica inovadora, chamada de "RNA interference" (RNAi). 
Mais informações aquiaquiaqui e aqui.
Vaca leiteira (Wikipedia)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

HIV e uma noite sem sono

   Exatas duas horas da manhã, do dia 02 de outubro, precisando acordar às 6:30 da manhã, estou acordado. Meu cérebro tá de brincadeira comigo hoje. Nem injetando melatonina eu vou dormir. Sério.

   Motivo? Não sei, mas hoje eu li uma coluna de um periódico científico que me intrigou muito, mais do que o comum. A coluna tratava da AIDS e afirmava - com um preventivo tom de dúvida - que já houve casos de cura total da infecção, e que novos fármacos já foram testados e podem vir ao mercado para o tratamento e prevenção da doença.

   Então. Os mais comprometidos cientistas, futuros cientistas ou seja lá o que ou quem for, que leem com frequência a literatura científica, já ouviram falar do caso "Timothy Brown".

   Brown foi - não concordo com o tempo verbal - soropositivo, e seus médicos, assim como Françoise Barré-Sinoussi (Nobel de Medicina e Fisiologia de 2008) afirmam que erradicaram a doença com transplante de células-tronco retiradas da medula óssea de indivíduos resistentes ao vírus HIV.

   A terapêutica, tanto na teoria quanto na prática, é válida, afinal, o uso de células-tronco de um indivíduo resistente ao vírus dará origem a células-mãe linfoides que se diferenciarão em Linfócitos T (do grupo CD4+ Helpers) resistentes à infecção, proporcionando imunidade ao infectado, que estará concomitantemente sendo administrado com o coquetel anti-HIV.

   Acontece que - justificando a minha não concordância com o tempo verbal - outros soropositivos já foram sim tratados com o mesmo processo de transplante de células-tronco, e não obtiveram resultados sequer semelhantes, e isso acaba gerando dúvidas, as quais nos permitem incluir Brown em duas categorias: ou como sendo um falso positivo, e a popularidade que a mídia lhe proporcionou o ajudou a dobrar as sequelas dos preconceitos da população para com sua "doença", (que ele por muito acreditou ter e provavelmente alertou seus parceiros sexuais) possibilitando a ele uma vida relativamente normal; ou como sendo um caso à parte.

   Assim, vocês podem tirar suas conclusões, e eu desejo muito vê-las nos comentários, mas antes, deem uma olhada no site que ele fez, e no seu slogan: http://timothyrbrown.com/. Na minha singela opinião, acredito que a terapêutica utilizada pode ser eficiente, só que com probabilidades baixas, dependendo de fatores genéticos. Mas, na possível possibilidade de cura, ele (Brown) se vangloriou com o feito, e desfrutou disso de uma forma que o aliviasse da pressão social que o soropositivo hoje sofre, em todo o mundo.

Timothy Brown

   Foi bonito, de certa forma, a maneira como ele utilizou o acontecido, fomentando as pesquisas de cura para doenças incuráveis hoje em dia, pedindo doações e tudo mais. Mas depois de ver as fotos que ele tirou de si mesmo, com pose e tudo mais, me fez pensar mais um pouco no egocentrismo escondido por trás de suas palavras.

   Bom. Mas, acima de tudo, acredito no avanço dos estudos de alguns fármacos que podem ser adicionados no coquetel anti-HIV.

   Um destes fármacos é o vorinostate, utilizados em humanos para o tratamento de câncer - hilário como as drogas utilizadas no tratamento de cânceres acabam por ser utilizadas na terapêutica de outras doenças, vide ESTE post sobre o bexaroteno e o Alzheimer - e atua de forma bem peculiar.

   O vírus HIV é um retrovírus que utiliza o metabolismo das células de defesa (denominadas Linfócitos T CD4 Helpers) como geradores de outros vírus, por um ciclo reprodutivo furtivo denominado ciclo lisogênico. Este ciclo se caracteriza da seguinte maneira: o vírus ataca as células T, injeta o seu material genético (RNA) e através de uma enzima específica, denominada transcriptase reversa, produz, por meio do metabolismo da célula hospedeira, uma molécula de DNA que fornecerá as informações para a sintetização de novos vírus. Este DNA se unirá ao DNA celular, e depois de um tempo, a célula T hospedeira sofrerá lise, liberando assim vários novos vírus para a corrente sanguínea, prontos para atacarem novas células T.

   Esses novos vírus nem sempre parasitarão outras células T. Muitos deles se mantêm escondidos nestas células de defesa, o que torna difícil a detecção da infecção, dando origem aos usuais e desoladores casos de "falso negativo", que comprometem a saúde dos soropositivos.

   Mas, este novo fármaco, o vorinostate, é capaz de "desentocar" esses vírus escondidos, que serão eliminados pelo coquetel anti-HIV.

   Assim, teremos uma forma eficiente de trazer, de forma definitiva, a palavra "cura" para os quadros de infecção por HIV.

   E tem mais. Parceiros sexuais de soropositivos agora têm mais uma arma contra a infecção, podendo preveni-la  com o uso de um fármaco já conhecido pelos portadores de HIV, o Truvada (emtricitabina + tenofovir). Este medicamento foi laureado com aprovação da FDA (agência que controla a comercialização de alimentos e remédio nos EUA) para ser um preventivo da infecção, se usado diariamente, tendo êxito em 75% dos casos de possível infecção por HIV. Os outros 25% devem ser cobertos pelo uso de outros métodos, como o uso da camisinha.


Representação artística do vírus HIV

"A AIDS nos faz iguais"

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

60.000 Visualizações! Cacildis

E não é que o Aopedavida atingiu esse número tão grande de visualizações. To feliz da vida. Temos vários novos colaboradores e um oceano de novas possibilidades, tanto de novos assuntos quanto de estilos de escrita. Até em rede nacional o Aopedavida já foi divulgado, vide a reportagem lá no final da página. Enfim, se você gosta do blog divulgue, coloque nos favoritos, compartilhe no facebook, no twiter, e em qualquer outra rede social que você conheça, isso ajuda o blog a ter cada vez mais evidência o que leva as informações para mais e mais pessoas. E divulgação de coisa boa nunca é demais. Obrigado

sábado, 22 de setembro de 2012

Gordura Noturna

Querendo perder peso? Coma seus carboidratos a noite
Começo este post colocando um outro que bate de frente com uma das frases mais comentadas na nossa sociedade, essa que dá cada vez mais importância para o acúmulo de gordura, seja por fins estéticos, seja pelos de saúde: Comer a noite engorda! Primeiro que devemos deixar essa afirmação mais precisa, existe uma corrente de pensamento que diz que: não importa que você ingira a mesma quantidade calórica que outra pessoa que tem o mesmo nível de atividade física que você, se você ingerir a maior parte das suas calorias a noite, e a outra pessoa ingerí-las antes da noite, você acumulará mais tecido gorduroso do que ela. Esse é um assunto que ainda vai dar muito o que falar, ainda mais porque o mundo se encaminha para virar o do filme Wall-E, no qual a população é gorda e vive sendo transportada por navinhas. Depois de muito pesquisar, em fontes de todos os tipos, revistas científicas, blogs de peer-review, revistas de variedade semanais, revistas que se dizem científicas, cheguei a minha conclusão: pode até ser que isso seja verdade, mas até hoje ninguém conseguiu demonstrar com argumentos suficientemente convincentes a tese, e mais! o contrário, o de que não importa a hora do dia em que você faz a sua refeição, e sim o quanto você come e o quanto você gasta é que vão interferir no seu acúmulo de gordura é bem mais fundamentado. Comer a noite, pelo simples fato de ser noite, NÃO engorda. Pelo menos essa é a verdade atual.


A razão para esse post veio a minha cabeça na segunda passada, quando começamos, eu e mais outros professores, a discutir o assunto. Como ele é controvertido, e existe esse mito pairando pela sociedade, vários deles defenderam ferreamente a tese do "comer a noite engorda", e eu fiquei lá, de louco, dizendo que já tinha lido sobre o assunto e que não concordava, mas não consegui explicar os meus argumentos. O principal argumento posto no dia é de que o nosso metabolismo (o conjunto de reações químicas que possibilita a existência de um ser vivo) é diferente durante o período do sono quando comparado com a vigília (o período em que estamos acordados). Isso é um fato, realmente nossas taxas metabólicas são menores durante o sono; e de que os níveis de insulina e de outros hormônios ligados com o metabolismo de açucares e gorduras também são diferentes a noite, outro fato. Assim que comemos temos uma liberação hormonal própria da situação, e depois de comer modificamos essa situação a fim de permitirmos que nossas células tenham o acesso facilitado aos nutrientes que acabamos de ingerir. Assim eles disseram que se comêssemos a noite acumularíamos mais tecido gorduroso.


Fato é que, se pensarmos em relação a balança ingestão de calorias X  gasto calórico, só engordaremos se ingerirmos mais caloria do que gastamos, independente da hora que fizermos essa ingestão. Agora, a noite, por estarmos em casa ao lado da geladeira, podemos ter uma tendência maior a comer mais do que deveríamos (e ai sim podemos ingerir calorias demais, e engordar). Outra questão é a de que deveríamos (perceba o tempo verbal) fazer nossa última grande refeição três horas antes de dormirmos, para que pudéssemos completar um ciclo hormonal completo, para termos um sono mais saudável, dormir melhor sem tantas interrupções noturnas. Mas isso não tem relação direta com o acúmulo da terrível "gordura noturna" essa fantasiosa maldição que nunca mais vai embora se se instalar. O assunto todo é tão interessante que podemos até fazer um approach levando em consideração nossos ancestrais recentes não tecnológicos, para os "homens das cavernas" seria natural comer a noite, já que de dia eles estariam caçando e não teriam tempo para parar e cozinhar a carne, por exemplo. Era a noite que o homem acendia sua fogueira, fazia uma bela de uma refeição, rica em gordura, e trocava as experiências com seus companheiros, dando início, assim, a nossa bela tradição de mantermos vivo o conhecimento e nos aprimorarmos cada vez mais quanto mais conhecemos.


Aqui, um ótimo exemplo de como uma revista pode exagerar a respeito de um fato e trazer um assunto bastante controvertido como se fosse uma verdade absoluta, e reparem como o texto diz:  "Conclusão: por algum motivo, comer à noite engorda mais...". Quer dizer, dane-se se tem explicação ou não. Aqui um outro exemplo, que foi copiado e colado da EFE para o UOL, sem nenhum tipo de discussão posterior.
Aqui você vê um raro exemplo de uma reportagem que diz para você estudar e tirar suas conclusões.
Aqui e aqui textos e referências que vão de encontro com o que eu estou defendendo no post
Aqui você acessa o principal texto recente defendendo o "comer a noite engorda", mas note que ele é feito com camundongos que, por mais que sejam utilizados como modelos de fisiologia humana não podem ser comparados a estudos feitos com humanos que mostram o oposto, como o artigo discutido lá em cima, no link introdutório. Aqui um vídeo de um professor falando sobre o mesmo tema.
E aqui, pra terminar, um exemplo muito doido de um "cara do fitness" super coerente e realmente interessado em procurar as melhores alternativas para responder as suas perguntas. Mas em hipótese alguma indico o livro dele, nem conheço o cidadão, só gostei do texto.

Rato e Tumor


Milho geneticamente modificado ligado a tumor baseado em fraca ciência
A última dessa semana foi mostrar ratos velhos e gordos, cheios de tumores gigantes, brotando de todos os lados, e associar isso diretamente ao consumo de alimentos geneticamente modificados (GM). Horríveis e desnecessárias as fotos divulgadas, ainda mais sabendo que esse estudo tem uma chance imensa de ser mais uma obra política econômica que realmente científica. Não estou dizendo que a ciência não é política, é sim!, mas quando ela segue padrões decentes de metodologia. Ao que parece, o grupo que publicou os resultados é um ferrenho contrapositor dos "diabólicos" alimentos GM. E a metodologia usada é passível de muita crítica, pleo tipo de rato usado (mais propensos a desenvolver tumores), pela idade deles (são velhos) e até pelo número de indivíduos utilizados nos diferentes grupos estudados. Mas basta que qualquer notícia chocante sobre GMs seja divulgada que uma onda de morte aos GMs vem assolar as discussões na internet mais sem sentido possíveis, as pessoas tendem a atacar com unhas e dentes o que elas não conseguem entender. Ainda existe muito a se conhecer sobre esses alimentos, pode ser que eles tragam desvantagens (como tudo), mas expor ratinhos tumorentos para enojar as pessoas é um método bastante deselegante. Já falei bastante sobre alimentos transgênicos, você pode ver aqui, um que fala sobre os microRNAs e outro aqui, que fala sobre a falaciosa dualidade entre transgênicos e orgânicos. E volto a mesma ladainha, pesquise os dados em diversas fontes, pode ter certeza que tem pessoas sérias que pensam diferente do que é exposto cronicamente na mídia.

PS: aqui mais um texto falando sobre o fato, e este está em português
PS 2: aqui mais um texto sobre a "doença do deficit jornalísitco", essa foi indicada pelo André Boldrin, de novo ele indicando coisa boa.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Até onde as células-tronco vão


"Stem-cells are the fuel for Neoplasic Tissue" - Nature

   É o seguinte: três resultados de estudos, compatíveis e coerentes, acabaram de ser publicados em dois periódicos científicos de grande prestígio no âmbito internacional, a  Science e a Nature. Tais resultados apontam a presença de uma subpopulação de células (que compõe de 5% a 10% das células totais) no cerne das neoplasias (cânceres). As células desta subpopulação divergem em vários aspectos das outras células que compõe o tecido neoplásico.

   As células dessa subpopulação podem ser células-tronco.

   Assunto extremamente polêmico, mas faz sentido.

   O tumor, já metastático, tem a capacidade de disseminar suas células através da corrente sanguínea, e estas têm a capacidade de se "fixar" em quaisquer outros tipos de tecidos. Tal capacidade pode ser bem explicada pela totipotência das células-tronco, a qual permite a diferenciação celular de células cancerosas e consequentemente a sua não rejeição nos outros tecidos saudáveis do organismo.

   Os resultados apontam, então, que as células que alimentam e norteiam os tecidos neoplásicos são, com uma certeza de 4σ, células-tronco, e se for definitivamente comprovado, haverá uma mudança radical nos paradigmas que envolvem o tratamento do câncer, abrindo um leque de possibilidades nas tentativas de cura com fármacos que não foquem apenas o crescimento do câncer, mas sim o que faz ele crescer.

   E vale frisar que os tecidos neoplásicos testados nos experimentos foram de glioblastomas (no cérebro), melanomas (na pele) e adenomas (nos intestinos), e apesar de suas características divergirem muito, há a possibilidade de outros tipos de cânceres se comportem de maneira diferente, ou mesmo não apresentarem essa subpopulação de células, que digamos, são candidatas a células-tronco.

Imagem, retirada do link acima do post, na página virtual do periódico Nature.

  • Na imagem, o tecido neoplásico de um melanoma mostra células em vermelho, que podem ser todas oriundas de uma única célula-tronco.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Afídeos

Encontradas Primeiras Evidências de Fotossíntese em Insetos
Para começar, o que são afídeos? São pulgões que pertencem a superfamília Aphidoidea e são verdadeiras pragas para a agricultura. São animais excêntricos, pois podem já nascer "grávidos" ou sem boca, entretanto, o que chama mais atenção foi descoberto há pouco tempo: os afídeos podem realizar algo como fotossíntese devido a presença de carotenoides. Sim, animais que realizam algo similar ao metabolismo energético que ocorre em plantas, algas, cianobactérias...
Pesquisadores do Instituto Sophia de Agrobiotecnologia em Sophia Antipolis, na França publicaram na revista Nature um estudo que sugere o processo análogo a fotossíntese com esses insetos que ficam verdes em temperaturas baixas, alaranjados quando em temperatura ideal e brancos em situações em que os recursos são limitados. Para mais detalhes, aqui o trabalho publicado na Nature.
Afídeo em imagem de microscópio eletrônico de varredura